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Vascaínas se unem na luta contra o assédio nos estádios de futebol O Dia

Rio – A presença feminina nos estádios de futebol, entoando cânticos de apoio ao seu time do coração, é cada vez mais constante. O preconceito nesse ambiente, que ainda tem nos homens a maior parcela, é figurinha carimbada. Diante desse cenário, um grupo de torcedoras do Vasco viu a necessidade de criar uma ação nas mídias sociais chamada Vascaínas Contra o Assédio.

Michelle Straub, uma das coordenadoras do movimento, fala sobre a ideia: “Surgiu porque vimos o quanto o assédio estava presente praticamente na vida de todas as mulheres que frequentam estádios. Todas nós já fomos vítimas ou presenciamos algum tipo de abuso. Dois casos marcaram bastante a gente: o da jornalista Bruna Dealtry, do Esporte Interativo, que foi assediada ao vivo enquanto fazia a cobertura de um jogo do Vasco na Libertadores. Um torcedor a beijou sem seu consentimento e saiu rindo para a câmera; e a história da Sarah Borborema, assessora de imprensa do clube, que foi assediada e hostilizada em um jogo pelo Campeonato Carioca sub-20 por torcedores rivais. Simplesmente cansamos de ficar caladas”, explica a jovem de 29 anos.

Sarah Borborema, de 23 anos, foi impedida de trabalhar somente por ser mulher. Após sofrer forte assédio de torcedores do Fluminense que acompanhavam uma partida contra o Vasco, em abril, a assessora do clube cruzmaltino teve que deixar o gramado por medo de algo pior.

Assessora do Vasco, Sarah Borborema foi impedida de trabalhar apenas por ser mulher – Carlos Santana/Portal da Base Brasil

“Foi uma situação muito complicada. Lembro que, um tempo depois, as meninas do Vascaínas Contra o Assédio me procuraram e falaram sobre a primeira reunião. Queriam muito que eu estivesse lá, que eu contasse o que aconteceu e tudo mais. Por ser uma pessoa que está acostumada a acompanhar o futebol, não só profissionalmente mas também das arquibancadas, sei exatamente o que elas passam. É terrível você sentir que está num lugar onde as pessoas estão tentando o tempo todo te dizer que aquele não é o seu lugar, o tempo todo te dizendo que você está errada por estar ali. Parece que os caras não estão errados por te desrespeitar, você que está errada porque está no espaço deles, entende? É muito difícil”, disse Sarah, em tom de indignação.

Para a jornalista, lugar de mulher é, sim, nos estádios de futebol. E onde mais ela quiser:

“Temos total direito de estarmos na arquibancada sem sermos desrespeitadas, sem sermos vistas como objeto, sem ficarmos o tempo todo sendo abordadas por homens. Estamos ali para assistir futebol e porque gostamos do time. Nós precisamos entender que essa luta é nossa, que precisamos nos abraçar. Enquanto a gente puder lutar pra fazer com que as outras pessoas não venham passar por isso, a gente vai lutar. E isso é o mais importante”.

MACHISTÔMETRO

Inspirado no movimento Mulheres de Arquibancada – Resistência e Empoderamento (MDA), nasceu uma releitura do Machistômetro, cartilha que descreve comportamentos machistas, como “proibir mulher de tocar na bateria”, “aproveitar a hora do gol para sarrar a torcedora” e “mandar a mulher explicar a regra do impedimento”. O panfleto é distribuído durante as partidas e, segundo Michelle, foi bem recebido pelos torcedores.

O machistômetro foi inspirado no movimento Mulheres de Arquibancada – Divulgação

“Teve uma rejeição bem pequena. Já ouvimos até que estamos invadindo um território masculino, que não podemos reclamar de nenhum tipo de assédio, já que estádio não é nosso lugar. Para os homens dessa minoria, só digo que eles estão bem equivocados, porque vai ter mulher na arquibancada, gandulando, apitando jogo, tocando em bateria de torcida e reclamando sim quando for assediada. Não vamos mais ficar de braços cruzados”, avisa.

Para Michelle, a defesa dos direitos das mulheres é um esforço que merece atuação contínua.

“Nosso maior desejo é que as mulheres consigam frequentar os estádios sem medo de serem hostilizadas ou desrespeitadas, só porque são mulheres. Seria uma honra que o Movimento Vascaínas Contra o Assédio servisse de inspiração para que torcedoras de outros clubes também tivessem esse tipo de iniciativa”, diz Michelle, exaltando as origens de luta do Vasco: “Somos parte de um clube de resistência, pioneiro na defesa de questões sociais. Não dava mais pra simplesmente ver as coisas acontecendo e ficarmos caladas, nós viemos pra fazer história”.

* estagiário sob supervisão de Marco Antonio Rocha

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